Retroflexão // autorregulação

3 de abril de 2020


TRIGGER WARNING: suicídio/ideação suicida.

Eu já tive milhares de blogs ao longo da minha vida e em todos eles eu precisei, ao menos uma vez, publicar um texto triste no qual eu expressava a minha falta de vontade de viver. Às vezes, eram textos calmos e tranquilos, nos quais eu relatava apenas uma desesperança, uma falta de fé na vida e em mim mesma; já outras vezes, os textos eram compostos por palavras desesperadas que jorraram para fora em momentos nos quais eu já não conseguia mais suportar a dor aqui dentro.

Para a gestalt-terapia, o suicídio anda de mãos dadas com os mecanismos de defesa neuróticos, especialmente a retroflexão. No livro “Gestalt: Uma Terapia do Contato”, Singer define a retroflexão como “fazer a si mesmo o que gostaria de fazer aos outros ou aquilo que gostaria que os outros fizessem”. Isso não necessariamente é uma coisa ruim, diversas práticas saudáveis são frutos da proflexão (como, por exemplo, a masturbação). Na gestalt-terapia, o problema não é o uso do mecanismo de defesa neurótico, mas sim sua cristalização ─ quando a pessoa não consegue deixar de usá-lo nos momentos em que não precisa. É neste contexto que surge a ideação suicida e o suicídio de fato.

Quando a dor é tamanha, é normal reagir com raiva, querendo matar essa dor. O problema é confundir essa dor com a própria existência, resultando numa proflexão extrema dos sentimentos agressivos. Toda a raiva e a necessidade de se livrar dessa angústia se volta para dentro, para a própria pessoa, em um momento no qual esse mecanismo não é nada adequado. É engraçado pensar em como uma coisa chamada “mecanismo de defesa” pode ser tão traiçoeira, nos levando à autoaniquilação. Infelizmente, a gestalt-terapia não é a única abordagem que traz essa visão um tanto quando complexa dos recursos que deveriam nos ajudar nessa vida.

A Abordagem Centrada na Pessoa, de Carl Rogers, fala na tendência atualizante, que é a convicção de que, dadas as possibilidades, a tendência é de que o indivíduo cresça e se atualize. Ou seja, é uma maneira bonita de dizer que os seres humanos estão sempre tentando buscar ser a melhor versão de si, mas que isso está sempre atrelado às possibilidades existentes no ambiente em que as pessoas vivem. Resumindo: não tem como ser uma boa pessoa se você vive em um ambiente merda. E isso traz uma guilt trip desgraçada a partir do momento em que você toma consciência de certos fatos.

Porque se eu tenho comportamentos e atitudes compatíveis com o ambiente em que estou, diante de uma mudança nesse ambiente eu posso me deparar com o fato de que esses comportamentos e atitudes são, na realidade, coisas das quais não aprovo. Quem nunca passou por um momento em que percebeu que agiu de forma completamente incoerente com os próprios ideais e visões de mundo? E o que vem em seguida é um momento de desestabilização completa; ficamos desnorteados, qualquer vento que sopra é o suficiente pra que a gente voe pra lugares extremamente desagradáveis da nossa própria psique. São momentos de alta vulnerabilidade, nos quais estamos completamente expostos a todas as dores dos mundos ─ interno e externo. E a saída é aprender a se equilibrar, é a chamada autorregulação, a capacidade de regular a si mesmo. Caso contrário, o resultado pode ser uma desintegração de si, uma ideação suicida.

Não importa se seja pelos mecanismos de defesa neuróticos ou pela tendência atualizante, o fato é que a ideação suicida é o produto de processos internos profundos e que, muito provavelmente, eu nunca vou me livrar disso. E a verdade é que eu já me conformei, já sei que vou viver com essa sombra pelo resto da minha vida, e que muito provavelmente é um perrengue que terei que passar sempre que ocorrer alguma mudança drástica. E tudo bem, eu só preciso aprender a lidar com isso. Eu sobrevivi muitas vezes, e eu acredito ser capaz de sobreviver mais. Afinal de contas, para ferida sarar, ela precisa sangrar.

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