Forgotten. Lost. Sunken.

18 de agosto de 2019


© Tobias van Schneider (Unsplash)

Hello depression my old friend. Como vai você? Já tem algum tempo que você não vem me visitar e eu recebi sua carta dizendo que estava a caminho. Você ficaria chateada se eu pedisse para que não viesse?

Por favor, não leve para o lado pessoal, mas é que tem tanta coisa acontecendo atualmente que eu acho que não tenho como te hospedar de maneira adequada nesse momento. Acontece que as aulas começaram, tem muita coisa pra fazer, e ter você aqui comigo vai atrapalhar um pouco a minha produtividade. Sabe como é, né? Então, se você puder adiar um pouco a visita, eu agradeço.

Sim, sim, eu sei que você já me ajudou em algumas coisas. Ao contrário do que muitos pensam, certas adversidades podem sim ser um baita catalisador para o nosso crescimento. O problema é que eu já não te amo mais — não como antes. Perdoe dizer isso assim, desse jeito, mas já se foi o tempo em que eu sentia prazer na tua companhia. Quando você pedia pra que eu ficasse na cama, quando você falava que era melhor se eu simplesmente não fosse encontrar meus amigos... Eu não conseguia resistir a você. Talvez fosse uma espécie de síndrome de Estocolmo, mas a verdade é que hoje eu percebi que nosso relacionamento era bem abusivo e eu estou tentando me manter afastada daquilo que me faz mal, sabe?

Não, eu não tô dizendo que você é um monstro maldito e que merece ser eliminado. Calma! Só porque você errou comigo uma vez, isso não invalida toda a sua existência. Isso não quer dizer que você é, de todo, má. Você pode ser melhor, eu sei que sim. Todos merecemos uma segunda chance. Se tem algo que eu aprendi na minha vida recentemente, esse algo é que nada é estático, e já passou da hora de nós pararmos de pensar que uma vez filho da puta, sempre filho da puta.

Eu sei que você não está muito contente com essa carta. Eu sei que você quer me visitar mais do que nunca agora. E eu sei que você está rindo da minha cara porque estou te tratando como se fosse algo externo a mim, e não como se fosse uma parte minha que eu simplesmente tranco no porão da minha alma pra tentar sobreviver. Eu sei, eu sei. É patético.

A verdade é que eu ainda não te aceitei completamente, e eu não sei como te aceitar sem deixá-la me consumir. Acho que eu ainda tenho muito trabalho a fazer. Eu só peço, eu suplico, por favor, deixe-me tomar meus remédios, está bem? Eu preciso deles, e cada vez que você me diz que não faz sentido tomá-los porque você sempre estará aqui de qualquer jeito, eu caio nesse seu papo sedutor de que eu deveria abraçar tudo que sou e não tentar mudar nada — o que é a maior furada do mundo, e nós sabemos disso muito bem.

Me desculpa se eu ainda não sei conciliar as coisas, se eu ainda preciso te manter distante pra conseguir lidar com o que está lá fora. Juro que estou trabalhando nisso. Então, por favor, aguenta mais um pouco e eu prometo que vou aprender a fazer a cama do jeitinho que você gosta, cozinhar aquele ensopado que você adora, e nós poderemos fazer as pazes e tudo vai ficar bem. O que acha? Pode ser assim?

On the Bottom - Fraunhoffer Diffraction

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